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                                    Aquacultura Costeira Sustentada, Extensiva E Semi-intensiva, no Sul da Europa

   
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Contexto


Introdução

Ao longo dos últimos séculos, os diferentes sistemas de aquacultura extensiva e semi-intensiva foram-se transferindo do mar para as zonas húmidas costeiras. Alguns são ainda actividades económicas rentáveis em muitas áreas costeiras do Sul da Europa e com algum significativo impacto socio-económico. Recentemente devido aos riscos ambientais de eutrofização causados sobretudo pelos sistemas intensivos de aquacultura em zonas e sistemas lagunares costeiros, e também devido à crescente preocupação dos consumidores com a segurança alimentar e bem-estar animal, o cultivo extensivo e semi-intensivo está a voltar à linha da frente, e a ter algum protagonismo.

No entanto face aos actuais custos de produção (terrenos e mão-de-obra bastante dispendiosos), os sistemas de aquacultura extensivos e semi-intensivos são geralmente demasiado elevados para que esta seja uma actividade económica sustentável, devido à sua baixa produtividade. Estes sistemas são ainda ocasionalmente apontados, e geralmente sem evidência científica, como tendo impactos ambientais negativos.

Infelizmente, a sua dependência de processos naturais também limita a sua produtividade, o que implica fraca compatibilidade com uma intensa actividade económica. Mais ainda, a viabilidade económica e a importância socio-económica destes sistemas de cultivo extensivo e semi-intensivo, estão frequentemente limitadas por questões técnicas, como seja, um limitado esforço em desenvolvimento e investigação para melhoramento destes sistemas, que ainda permanecem largamente baseados em práticas tradicionais.

Sabe-se também que a maioria dos consumidores não diferencia os produtos provenientes do cultivo extensivo e semi-intensivo relativamente ao produtos da Aquacultura intensiva, e que existem formas sustentáveis de explorar recursos naturais aquícolas, inclusivamente através do desenvolvimento de cultivos extensivos como actividade económica, que podem ser associados com a conservação de zonas húmidas.

Por isso, a optimização dos protocolos de cultivo existentes, e o desenvolvimento de novos protocolos conducentes ao aumento da produtividade de tanques terra e lagoas, ou à utilização de processos de certificação que permitam dar valor acrescentado aos produtos da aquacultura extensiva e semi-intensiva, poderiam tornar a esta actividade economicamente mais eficaz e atractiva para novas gerações de aquacultores.

Optimização dos sistemas de produção

Uma das formas de trazer “mais-valias” ao sector aquícola extensivo e semi-intensivo no Sul da Europa, é optimizando os sistemas de produção, enquanto se mantêm as condições ambientais nas zonas costeiras. Diversas abordagens podem ser realizadas neste sentido, incluindo:

a) O melhoramento das formulações de dietas pode aumentar a produção e reduzir os impactos ambientais em produção semi-extensiva em lagoas/tanques terra. A proporção de nutrientes utilizados pelo peixe para crescimento pode ser maximizado, reduzindo assim a quantidade de desperdício de alimento e perda de nutrientes não metabolizados nas aquaculturas. Os alimentos não digeridos, não utilizados e não ingeridos fazem parte dos efluentes em Aquacultura. Assim, a selecção de ingredientes de elevada digestibilidade e evitando a inclusão de nutrientes em excesso na formulação de alimentos, são dois factores importantes para reduzir a carga de matéria orgânica nos efluentes e assim contribuir para uma diminuição dos impactos ambientais nos sistemas semi-intensivos em lagoas/tanques de terra. Mais ainda, a substituição de farinha e óleo de peixe tanto quanto possível por ingredientes vegetais ajudará a reduzir a pressão sobre os recursos naturais, nomeadamente na pesca dirigida a espécies para produção de farinha e óleo de peixe. Existe ainda uma elevada pressão dos consumidores na Europa para que esta substituição por ingredientes vegetais não seja realizada por organismos geneticamente modificados (GMO-free).

b) Novas ferramentas de investigação providenciadas pela biologia molecular podem ser utilizadas em sistemas extensivos e semi-intensivos nas áreas costeiras. O progresso extraordinário nas tecnologias de genética e biologia molecular foi recentemente alargado a espécies importantes da aquacultura marinha. Peixes cultivados em condições extensivas e semi-intensivas, como a Vallicultura, necessitam de adaptações bastantes peculiares, uma vez que, os parâmetros físicos ambientais variam bastante ao longo do ano. De facto a produção de Sparus aurata pode ser gravemente afectada pela “Doença de Inverno” associada ao abaixamento da temperatura, e que tem sido causa de perdas económicas significativas. Diversos estudos efectuados em dourada demonstraram q existência de uma diminuição da resposta imunitária e de disfunções metabólicas em peixes afectados pela “Doença de Inverno” mas a sua base moleculares e genéticos nunca foi estudada até ao presente. Por isso uma abordagem genómica funcional pode contribuir para identificar gene/s ou cadeias de genes que tenham influência no processo de adaptação e possam ser fundamentais na selecção de estirpes de peixes que apresentem melhor desempenho, em condições de aquacultura.

c) Uma síntese das técnicas de gestão e maneio de tanques de terra (tais como controlo de macroalgas, controlo de predadores, melhoramento da produtividade natural, técnicas de captura, etc.) ou outros tipos de gestão utilizados nos diferentes países, pode ser muito útil no aumento/melhoramento da produção. A literatura é abundante sobre cultivo em tanques de terra de espécies de água doce, mas limitado e disperso (ou não publicado) sobre o cultivo em tanques terra de espécies marinhas ou estuarinas.

d) A optimização dos métodos de abate do peixe pode, igualmente, ser uma “mais-valia” no sector de aquacultura extensiva e semi-intensiva no Sul da Europa, pela melhoria na qualidade dos produtos para o mercado. Os procedimentos de abate podem influenciar a qualidade do músculo na perspectiva do consumidor e também o tempo de prateleira (data de validade), um factor importante estritamente relacionado com o tempo de comercialização durante a elevada qualidade da fase de degradação inicial. A avaliação do rigor mortis em peixes e as características sensoriais destes ou de outras espécies podem ser utilizadas para determinar o método de abate mais eficaz, o qual poderá ser padronizado, facilitando a comparação de diferentes amostras a partir de diferentes instalações.

Benefícios extra-comerciais da aquacultura

Contudo, além das bases técnicas e da questão económica, outras dimensões da viabilidade deveriam ser consideradas. O simples reconhecimento de benefícios extra-comerciais associados à aquacultura, como a manutenção das funcionalidades das zonas húmidas, estruturas da paisagem ou sentinelas da integridade do ecossistema costeiro, não contribuem para melhorar a viabilidade económica destas produções. A via dos subsídios de produção para serviços extra-comerciais como o ambiente, tem-se provado difícil como forma de aumentar a sustentabilidade. A procura de incentivos internos como as mais-valias dos produtos, ou a sua diversificação poderão ser mais eficientes. Existem diversas opções nesse sentido, uma é a diferenciação dos produtos, baseada numa acção colectiva para a construir de nichos de mercado, oferecendo prémios a produtos provenientes da aquacultura extensiva e semi-intensiva. Outra será considerar a diversidade de actividades complementares que podem ser desenvolvidas de forma a gerar valor adicional sob a forma de mais-valias ao produto, ou sob a forma de outras actividades que beneficiem o ambiente e a imagem da aquacultura extensiva e semi-intensiva.

Na área de diversificação do valor adicional, a primeira opção será em valorizar o produto por processamento simples (apresentação, embalagem, preparação simples) ou por processamentos mais elaborados (filetagem, salga (salmoura), fumagem, enlatamento,...). A outra via é o desenvolvimento de actividades relacionadas com o turismo e educação. O eco-turismo poderá incluir o alojamento na quinta e educação ambiental, e a produção tradicional poderá tornar-se um elemento chave para sustentar economias locais que desejem conservar ecossistemas ricos mas frágeis. Mas existem diversas outras formas de produzir valor adicional através da promoção de ecossistemas locais e actividades tradicionais. Em muitos casos, tanto a iniciativa individual como a acção colectiva têm um papel fundamental no desenvolvimento dessas dinâmicas. A investigação conduzida sob a rede temática “FEMMES (Q5TN-2002-01560)” que trabalhou com associações de mulheres dedicadas à pesca e aquacultura, demonstrou que as mulheres têm um papel fundamental na construção da sustentabilidade nomeadamente através da valorização pela diversidade (www.fishwomen.org).

Qualidade dos produtos e certificação

De forma a tornar competitivas as actividades de aquacultura extensiva e semi-intensiva no Sul da Europa, alguns critérios objectivos são necessários para analisar o impacto deste tipo de aquacultura na qualidade do produto final. Muitos trabalhos mostraram que a qualidade do filete é influenciada pelo meio envolvente, pela densidade de produção, pela técnica de abate mas também pela natureza do alimento recebido durante as fases de crescimento. Geralmente, em aquacultura, o alimento determina em larga escala as características do filete. As análises de ácidos gordos e o perfil de amino ácidos, relacionados com condições ambientais de alimentação, serão utilizados como indicadores para diferenciar estes produtos dos produtos provenientes da aquacultura intensiva e irão permitir a avaliação da correspondente qualidade nutricional do filete. A análise sensorial efectuada por um painel de provadores treinado, avaliará as características específicas de odor, aparência, textura e sabor destes produtos, em comparação com produtos provenientes de aquacultura intensiva.

Mais ainda, análises de metais pesados e dioxinas podem garantir ao consumidor que os produtos são seguros, e contribuir para um melhor conhecimento destes produtos. Como noutros produtos alimentares tradicionais (vinho, queijo e derivados da carne produtos cárneos (enchidos), por exemplo), o peixe de cultivo proveniente de regimes extensivos e semi-intensivos tem potencial para ocupar nichos especiais de mercado. Para alcançar a perspectiva do consumidor duma forma mais fácil e mais eficaz, alguns países europeus desenvolveram diversos sistemas de certificação de forma a tornar mais visível as vantagens de tais produtos. A adopção dos processos de certificação é desejável e aconselhável. Contudo, primeiro é aconselhável identificar marcadores de qualidade e desenvolver “códigos de conduta ”.

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